quarta-feira, novembro 01, 2006

Sobre o mundofreudiano(por Eduardo Sande)

Onde está Wally-analista? Uma experiência inovadora no campo da psicanálise No seminário ‘A ética da psicanálise’ o psicanalista francês Jacques Lacan encadeia, de maneira muito interessante, dois obstáculos que se puseram no caminho da teoria da psicanálise. Nos fala em um primeiro momento: “Jones nos diz ter recebido dessa pessoa a confidência de que, um dia, Freud lhe diz algo como isto – Depois de uns trinta anos de experiência e reflexão, continua havendo um ponto sobre o qual fico sem poder dar resposta, e que é – War will das Weib? O que quer uma mulher? Muito precisamente – O que ela deseja?”. Para arrematar algumas páginas depois: “Alguma coisa, certamente, deverá permanecer aberta no que se refere ao ponto que ocupamos na evolução da erótica e do tratamento a fornecer, não mais a fulano ou sicrano, mas à civilização e a seu mal estar. Deveremos talvez fazer o luto de toda e qualquer inovação efetiva no âmbito da ética – e até um certo ponto poder-se-ia dizer que algum sinal disso se encontra no fato de não fomos nem mesmo capazes, após todo nosso progresso teórico, de originar uma nova perversão”. A mulher incompreendida (poderíamos dizer: a histérica?) e o perverso que não se deixa reinventar. Ademais, a citação ao mal-estar da civilização. Poderíamos perguntar: se somos, os analistas, responsáveis pela direção da evolução da erótica, o que terá ocorrido ao nível de nossas instituições e de nossos dispositivos, de formação e garantia, obrigados a conviver com esses dois formidáveis sintomas: a histeria e a perversão? Estariam nossas instituições condenadas ao terrível círculo do pequeno poder que o desejo histérico e os jogos perversos estabelecem? Responder a essas perguntas pode ser tão mais importante quanto seja matéria que interessa para além das fronteiras de nosso campo. Jacques Lacan, importante psicanalista francês, foi mais longe que propor o relançamento das premissas freudianas. Tomou a seu cargo a tarefa de reinventar a clínica, a instituição e os dispositivos de formação-garantia estabelecidos pela Associação Internacional da Psicanálise (IPA), instituição de Sigmund Freud. No momento em que realizamos, nessa cidade, um movimento que caminha na direção de inovar, mais uma vez, esses mesmos dispositivos, cabe vir a público para convidar a comunidade a refletir conosco sobre esta experiência da maneira a que possa contribuir com a permanente análise que vimos realizando. Primeiro, pela importância que pode vir a ter para esta comunidade ter seu lócus de palco para o giro proposto, se este se mostrar profícuo. Depois, porque o paradigma ensaiado pode vir a se tornar um bom antídoto contra o círculo vicioso constituído de um lado pela falta de alternativa ao paradigma vigente e de outro pela proliferação de alternativas míticas mágicas que procuram, ingenuamente, desafiá lo. No lugar, entretanto, de discutir teoricamente os termos em movimento, optaremos por apresentar seu principal motor que vem a se constituir em um dispositivo a que chamamos ‘O mundo freudiano’. Pensamos que dessa forma convocamos o olhar diretamente para a prática que vem sendo desenvolvida. Certos de que aos espíritos argutos não escapará a teoria que esta requisita. Em poucas palavras: o mundo freudiano é um dispositivo em que se procura repetir em grupo o que se passa no set analítico. O pressuposto é que pessoas que atendem em psicanálise, que fazem sua análise ou que estudam psicanálise podem sustentar uma semiótica em que prevaleça a ética do desejo no lugar da ética do poder. As regras estabelecidas são simples: a) constitui se uma fraternidade em que se deixa, ao entrar, as diferenças de puro prestígio; b) institui se a abstinência em relação ao outro, ou seja, cada um só fala de seu próprio lugar e sobre si próprio; c) promovo se a produção textual, em que entre dois encontros pode se estabelecer como vínculo e como recolhimento de restos (lixo) as sobras do último mundo freudiano; d) instaura se o corte e seu correlato: a interpretação, como instante em que dois discursos se tangenciam e se desvelam e que, em grupo, se coloca como instrumento desvelador para todos os participantes. Estabelecida os princípios de funcionamento, que poderiam, com efeito, serem reduzidos a apenas um único: ‘aqui, no mundo freudiano, opera se tal como em uma análise’, resta estar atento para os efeitos que também são encontrados nesta, a saber: os efeitos transferenciais, as colagens imaginárias e os indesejados acting out e passagem ao ato. Nestes, alguns riscos incluídos, nenhum deles ausentes da prática clínica. Restaria perguntar: onde está o Wally-analista? Para tentar responder essa questão será primeiro preciso considerar que o mundo freudiano é freqüentado por pessoas com diferentes níveis de contato com a clínica. Desde aqueles que nunca fizeram análise até os que têm uma prática clínica de muitos anos. Logo o outro a quem se dirige a fala, o outro que pertence ao espaço lógico de cada um, apresenta se de diversas formas. O analista no mundo freudiano, poderíamos resumir, é um espectro fantasmático que pode tomar qualquer um como semblante. Ademias, considere se a possibilidade de que a ‘experiência do inconsciente’ de um é capaz de ‘contaminar’ àqueles que se encontram em ser redor. Afirmar isto, é acreditar que a experiência instalada por Freud tem a possibilidade de se instalada em uma comunidade por um processo de autopoesis gerar uma semiótica e dar lhe consistência e sustentação. Com isso, estaríamos em condições de responder de maneira favorável ao luto lacaniano de uma terapêutica para o mal estar da civilização. Iniciada desde fevereiro a experiência do mundo freudiano tem se mostrado fecunda. Assim como se diz que a análise não é para qualquer um, poderíamos dizer que o mundo freudiano não é também para todos. Alguns, principalmente, aqueles que ainda não tem um grande percurso de análise abandonam-no no momento em que o ‘inconsciente’ começa a operar de forma mais vigorosa. É possível verificar, como na análise, uma certa resistência ao dispositivo. A interferência silenciosa entre discursos, por outro lado, salta os olhos. Um discurso, apesar de sempre, por princípio, pessoal e não referenciado, parece partir de pontos de outros discursos ou de seus espaços lacunares. A experiência de corte e, ademais, uma experiência assistida, convoca para as escansões dos sujeitos. Para finalizar nossa análise desta experiência, restaria argüir sobre o futuro desta ilusão. Por que inventar em pleno começo de século XXI, novos dispositivos de formação, transmissão e garantia? Por que estabelecê lo fora da instituição? À primeira pergunta respondemos que ainda estamos carentes de um modelo de formação não iniciático. A ‘experiência do inconsciente’ fora do tradicional set analítico trará provavelmente novas questões e isto é muito bom. A leitura crítica possível em uma experiência dessa natureza torna, outrossim, os acontecimentos distantes dos ritos de iniciação baseados em uma fé. A transmissão da prática analítica e sua constante invenção não encontraram, por sua vez, até o momento, um dispositivo a altura de sua magnitude. Tradicionalmente, transmite se a teoria e a se imerge em uma prática que por efeito da própria imersão retira qualquer possibilidade de maior reflexão. A garantia à sociedade apregoada por Lacan na fundação da sua escola mostrou se sempre fictícia. Basta constatar que nenhuma das instituições de nossa cidade possui dispositivos de autorização e garantia em funcionamento. Sem estes nenhuma instituição é capaz de garantir nada a não ser uma incipiente proposta de reserva de mercado para seus próprios freqüentadores. Quanto à manutenção do dispositivo fora da instituição a resposta seria: estamos na expectativa de que ele crie seu próprio instituinte. Não conseguimos entender como as instituições de psicanálise podem continuar caudatárias do paradigma foucaltiano para as instituições, seja de segurança, de educação ou de saúde, a saber: hierarquias constituídas, baixo nível de liberdade e coesão coercitiva. Freud nos diz no início de seu texto de 1921 ‘Psicologia de grupo e análise do eu’: “Se uma psicologia – interessada em explorar as predisposições, os impulsos instituais, os motivos e os fins de um indivíduo até as suas ações e suas relações com aqueles que lhe são mais próximos – houvesse atingido completamente seu objetivo e esclarecido a totalidade dessas questões, com suas interconexões, defrontar se ia então subitamente com uma nova tarefa, que perante ela se estenderia incompleta. Seria obrigada a explicar o fato surpreendente de que, sob certa condição, esse indivíduo, a quem havia chegado a compreender, pensou, sentiu e agiu de maneira diferente daquela que seria esperada. Essa condição é a sua inclusão numa reunião de pessoas que adquiriu a característica de um ‘grupo psicológico’”. O mundo freudiano talvez venha a se constituir no meio de formalização de um ‘grupo psicanalítico’. Qual seria a distinção então que fazemos entre ‘grupo psicológico’ e ‘grupo psicanalítico’? Sintetizamos: imersos em uma semiótica freudiana, (ao contrário da imersão de um grupo social em que as identificações parecem jogar um papel fundamental), e convocados à exploração contínua do inconsciente e pelos efeitos que esta nos provoca, nos comportamos, no mundo freudiano, como um grupo de antropólogos: pesquisamos o que há de mais arcaico no humano. Só que no lugar de buscar em cavernas e desertos buscamos no interior de nossos universos psíquicos. Ainda, no lugar de promover qualquer tipo de emprobecedora retificação social promovemos uma enriquecedora viagem de retorno à matriz potencial inicial.