Por Conceição Nobre(nº1)
A cena se passa da seguinte maneira: estou com oito anos, moro no colégio interno e por algum motivo que não recordo, estou na casa de minha avó. Ela sai do banho, com os cabelos enrolados em uma toalha. Percebo algo diferente e pergunto: o que é isso que você passou nos cabelos? Ela responde: é álcool não está vendo? E eu prontamente retruco: agora acenda o fósforo.
Nos olhamos, nos encaramos, nos enfrentamos. Segurei firme, não fraquejei chorando quando ela reagiu com aquela conhecida violência surda, minuciosa. De volta ao colégio, adoeci muito seriamente, passei semanas com febre alta e precisei ser operada das amídalas.
Um detalhe interessante é que tenho sensação de morte quando tenho febre. Sempre achei que fosse devido a minha descendência índia.
Semana passada tive muita febre, a garganta totalmente prejudicada. Resolvi ir ao médico até pelo desconforto de faltar ao trabalho na semana de S. João. Ele me examina e diz: você está com amidalite. Não, respondo, não é possível. Não tenho amídalas. Ele retruca. Ficou um pedacinho e este pedacinho está inflamado.
Há algumas semanas decidimos escrever um texto sobre o mundo freudiano, para publicação. Sei perfeitamente que atravessaremos uma exposição sujeita a críticas, construtivas e destrutivas. Na verdade, trata-se de um enfrentamento. Aí está! Eis que minha avó está de volta.
O texto de Carlos Castagneda sobre os tiranos, foi durante anos, algo que me envolveu muito profundamente. Havia um ensinamento ao guerreiro de como enfrentar e acabar com um tirano. A certeza de que tiranos precisam ser totalmente derrotados. Assassinados! Pude trabalha-lo associando- à minha avó com bastante profundidade. O que venho, no entanto podendo deslizar o meu entendimento é o pedacinho de tirano que restou. Apesar de ter o mesmo resultado no meu corpo, fazendo-o adoecer, este pedacinho que sobrou não é de minha avó. Este é meu. Quando minha avó se foi, fruto de meu trabalho de análise, restaram os tiranos que eu mesma crio. Eis que minha avó está de volta mas vestida de mim.
Conceição Nobre

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