Por Eduardo Sande(nº11)
Mais um fragmento de sonho.
Uma dor no peito violenta. Sinto que morro. Há um desmanchamento concêntrico de mundo. Um sentimento de estranheza de como a morte se apresenta simples. Acordo. Uma sensação de tranqüilidade e bem estar.
Anos depois, uma analisante traz um sonho parecido: está na rua, leva um tiro, sente que morre. Pensa: morrer é só isso.
Ontem fui ao aniversário de uma amiga. Seu marido foi atropelado por uma moto (ia escrever pela morte). Os amigos brincam que não foi uma moto, foi uma motoqueira. O sexo bordeja o registro da morte. É como se dissesse: ‘já que a morte não adveio, vamos ao que interessa: o sexo’.
Hoje pela manhã, assisti ao filme ‘Crash’. Me parece uma estética forte (apesar de americanizada). As vidas correm ao longo da grande cidade, Los Angeles. A cada momento que o roteiro foca uma vida, que se cruza aqui e ali com as outras, vemos o lobo do homem agindo. Os personagens mudam de posição e seus atos, por mais terríveis que sejam, tem uma justificativa.
Um consultório de psicanalista tem um pouco desta estética. A cada sessão, o universo faz curva em um discurso particular. Logo depois outro. Nós analistas, como a câmara a flutuar entre as cenas.
Eduardo Sande

1 Comments:
Lendo esse seu texto, pensei no gozo de morte...
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