Por Conceição Nobre(nº3)
Brincando de gritos
O grito de Renato ficou gritando em mim dias inteiros.
Onde estarão gritando gritos?
A arte ficou tão igual a outras artes que um dia, cansada de ser igual, gritou em garatujas. Freud explicou com tanto esmero sua teoria, que um dia Lacan gritou uma compreensão impossível. A Instituição de psicanálise foi tão manipuladora que um dia, gritamos o mundofreudiano. Os analistas foram tão distantes, tão engessados, que um dia aceitamos gritar o banquete. E por causa disso tudo naquele dia houve um grito. E ... meu ouvido ficou agoniado, porque gritos servem pra causar aflição, nos ouvidos, nas almas. Fiquei ouvindo outros gritos que há muito tempo não eram ouvidos pelas pessoas que estavam gritando. Então disse: ei, olhe... você está gritando!
As pessoas gritam quando não sabem o que fazer com as palavras. As palavras quando ficam vazias voltam a ser rabiscos, barulhos, que é onde os poetas e os artistas vão buscar gritos, que se transformam em outras palavras, porque na verdade são gritos escondidos.
Renato gritou, e o grito de Renato ficou gritando, chamando, convocando. Descobri que não era um grito surdo. O grito de Renato tinha muitas palavras. Cada uma brincava de levar a outra. E todo mundo ouviu as palavras que o grito de Renato gritou. E todo mundo ouviu quando elas dançaram, brincaram, disseram desaforos, se declararam, arrumaram e desarrumaram.
Depois, cansadas fizeram sentido silêncio de gritos.
Conceição Nobre

3 Comments:
e eu fico tentando gritar pra mim mesma...mas quase não sai voz....lembro agora de um sonho que tive, uma velha sentada olhando e rindo pra mim, assustada, tento gritar, mas não consigo....fico, ali presa, imóvel...
Um comentário a partir do comentário: lembrei agora de um sonho/pesadelo que acordei gritando, cavando o real.
Estamos gritando este Blog, tão diferente de tudo que vi acerca de um grupo de psicanalistas.Enfentando fantasmas na internet.
Conceição
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