sábado, novembro 25, 2006

Por Eduardo Sande(nº4)

Há uma dupla composição: 1) o quadro na sala de espera em que o garoto olha o belo corpo de mulher desnudo à sua frente; ela não olha para ele; no chão sobre uma almofada uma concha guarda seu buraco enquanto, ao lado, sobre o piso, uma corneta‑falo aparece como uma arma deposta; linda composição; 2) no encontro de filosofia e psicanálise, realizado a poucas semanas, um winicottiano fala da solução não freudiana encontrada por Winicott para a castração: o pai castrador não é uma ameaça, mas, necessidade, uma vez que sem este obstáculo e privado do instrumental necessário, o falo‑pênis‑corneta ereto, só haveria espaço para a frustração. Um Winicott com tempero lacaniano, penso!

Na cisão do eu, Freud defende que, diante da ameaça de castração, o sujeito encontra uma saída ‘esperta’: de um lado denega a castração, do outro, a aceita. A aceita, por ser privado de condições de ultrapassá‑la, eu diria. Os únicos falos com que podemos ultrapassá-la, neste momento, são as palavras, a simulação, a substituição sintomática, a sublimação. Diversas saídas. Retornar a este ponto em uma análise é perceber que aquilo que parecia saída é, em verdade, um beco sem saída. A única saída de um beco sem saída é retornar.

Uma cena do último verão: Estou no Souza, em Praia do Forte. Há um trio de belas portuguesas. Sou rapidamente informado pelo serviço secreto do lugar: chegam, se divertem, dançam, mas ninguém consegue, efetivamente, pegá‑las. Uma em especial me chama a atenção, captura meu olhar. Olho forte, e ela acusa o recebimento do golpe desejante. Esta cena fica congelada aí, como no quadro da sala de espera. Ela vai dançar só para mim; eu ficarei olhando, não por 10, 15 minutos, mas por algo como uma hora e meia. A cena acha‑se suspensa. Eu não me movo, ela também não. Eu bebo a cerveja e cada curva daquele belo corpo, cada movimento dos quadris, cada brilho daquele olhar. Não consigo, entretanto, sair do lugar. A situação pode parecer patética. Na verdade não é. Eu a tenho à mão, mas não posso mover as mãos e pegá‑la. Mas eu a tenho a tal ponto que nada a retira daquela cena. Outros homens tentam dançar com ela: nada. Uma de suas amigas reclama com ela: ‘O que ta fazendo aí? Caí fora!’. Nada. Tudo se passa como se eu e ela estivéssemos presos em suspensão em uma cena arcaica. Como a cena do quadro.

Há momentos em que há uma brecha e a suspensão pode ser quebrada. Certa vez, eu disparei: ‘Quando você chegou aqui, pensei: quero esta mulher. Pra que não sei, mas sei que quero’. Interpretação no ato da fala: pra que o menino do quadro quer aquela mulher, finalmente? Vai lá alguém saber. Mas ele quer. Seus olhos dizem sobre isso.

Eduardo Sande

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

penso em uma atitude infantil ou mimada como me diziam, quer porque quer, pra nada, pra saber que pode ter, ao menos... eu queria porque queria coisas que não sabia o que fazer, logo depois desistia. AS vezes me diziam quer pra quê, vc tb quis "tal coisa" e está aí jogado; Eu sempre respondia como se desta vez fosse diferente,eu quero muito - dizia - insensatamente, sem saber identificar meu verdadeiro desejo.
Iris.

30/11/06  
Anonymous Anônimo said...

O desejo é a relação do sujeito com sua falta e nao com um objeto. As vezes o objeto está alí só para inludir o sujeito de que ele pode satisfazer seu desejo, e este é um encontro marcado com o engano da sedução, promessa de gozo fácil. Quando eu era criança sofria muito quando os adultos me diziam que não era verade que eu queria algo e tratavam isto como um coisa menor, sem sentido, como um capricho infantil. Isto destituia-me de minha condição de sujeito. Hoje, talves fosse menos difícil para mim nomear meu próprio desejo se eu não tivesse apredido a julgá-lo como algo sem valor. Quanto a função do objeto, como gozar dele essa é uma questão de cada um. Neste sentido, talves eu pudesse estar gozando de outro lugar.

5/12/06  
Anonymous Anônimo said...

Interessante este texto que me faz pensar na teoria e na análise. Penso que o Édipo, sendo uma passagem, supõe que a submissão a ele realizada tenha como fruto o deslizamento e a possibilidade de metaforização. As crianças gostariam muito de poder olhar um homem ou uma mulher, simplesmente como pai e mãe e ficarem liberados desse aprisionamento ao Outro. Sabemos que o adulto é responsável por essas situações. Também sabemos que muitas crianças dão nó em pingo d'água e conseguem uma autorização, ortopédica em algumas situações é verdade, mas ainda assim, se safam.
Eu sou uma delas.
Conceição

6/12/06  
Anonymous Anônimo said...

Depois que escrevi fiquei pensando:
Submeter-se ao Édipo? Não é bem disso que se trata. Ninguém se submete (submetendo-se) ao Édipo. Trata-se de algo, inexorável. Mas foi um interessante engano.
Conceição

6/12/06  

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