Por Eduardo Sande(nº4)
Há uma dupla composição: 1) o quadro na sala de espera em que o garoto olha o belo corpo de mulher desnudo à sua frente; ela não olha para ele; no chão sobre uma almofada uma concha guarda seu buraco enquanto, ao lado, sobre o piso, uma corneta‑falo aparece como uma arma deposta; linda composição; 2) no encontro de filosofia e psicanálise, realizado a poucas semanas, um winicottiano fala da solução não freudiana encontrada por Winicott para a castração: o pai castrador não é uma ameaça, mas, necessidade, uma vez que sem este obstáculo e privado do instrumental necessário, o falo‑pênis‑corneta ereto, só haveria espaço para a frustração. Um Winicott com tempero lacaniano, penso!
Na cisão do eu, Freud defende que, diante da ameaça de castração, o sujeito encontra uma saída ‘esperta’: de um lado denega a castração, do outro, a aceita. A aceita, por ser privado de condições de ultrapassá‑la, eu diria. Os únicos falos com que podemos ultrapassá-la, neste momento, são as palavras, a simulação, a substituição sintomática, a sublimação. Diversas saídas. Retornar a este ponto em uma análise é perceber que aquilo que parecia saída é, em verdade, um beco sem saída. A única saída de um beco sem saída é retornar.
Uma cena do último verão: Estou no Souza, em Praia do Forte. Há um trio de belas portuguesas. Sou rapidamente informado pelo serviço secreto do lugar: chegam, se divertem, dançam, mas ninguém consegue, efetivamente, pegá‑las. Uma em especial me chama a atenção, captura meu olhar. Olho forte, e ela acusa o recebimento do golpe desejante. Esta cena fica congelada aí, como no quadro da sala de espera. Ela vai dançar só para mim; eu ficarei olhando, não por 10, 15 minutos, mas por algo como uma hora e meia. A cena acha‑se suspensa. Eu não me movo, ela também não. Eu bebo a cerveja e cada curva daquele belo corpo, cada movimento dos quadris, cada brilho daquele olhar. Não consigo, entretanto, sair do lugar. A situação pode parecer patética. Na verdade não é. Eu a tenho à mão, mas não posso mover as mãos e pegá‑la. Mas eu a tenho a tal ponto que nada a retira daquela cena. Outros homens tentam dançar com ela: nada. Uma de suas amigas reclama com ela: ‘O que ta fazendo aí? Caí fora!’. Nada. Tudo se passa como se eu e ela estivéssemos presos em suspensão em uma cena arcaica. Como a cena do quadro.
Há momentos em que há uma brecha e a suspensão pode ser quebrada. Certa vez, eu disparei: ‘Quando você chegou aqui, pensei: quero esta mulher. Pra que não sei, mas sei que quero’. Interpretação no ato da fala: pra que o menino do quadro quer aquela mulher, finalmente? Vai lá alguém saber. Mas ele quer. Seus olhos dizem sobre isso.
Eduardo Sande

4 Comments:
penso em uma atitude infantil ou mimada como me diziam, quer porque quer, pra nada, pra saber que pode ter, ao menos... eu queria porque queria coisas que não sabia o que fazer, logo depois desistia. AS vezes me diziam quer pra quê, vc tb quis "tal coisa" e está aí jogado; Eu sempre respondia como se desta vez fosse diferente,eu quero muito - dizia - insensatamente, sem saber identificar meu verdadeiro desejo.
Iris.
O desejo é a relação do sujeito com sua falta e nao com um objeto. As vezes o objeto está alí só para inludir o sujeito de que ele pode satisfazer seu desejo, e este é um encontro marcado com o engano da sedução, promessa de gozo fácil. Quando eu era criança sofria muito quando os adultos me diziam que não era verade que eu queria algo e tratavam isto como um coisa menor, sem sentido, como um capricho infantil. Isto destituia-me de minha condição de sujeito. Hoje, talves fosse menos difícil para mim nomear meu próprio desejo se eu não tivesse apredido a julgá-lo como algo sem valor. Quanto a função do objeto, como gozar dele essa é uma questão de cada um. Neste sentido, talves eu pudesse estar gozando de outro lugar.
Interessante este texto que me faz pensar na teoria e na análise. Penso que o Édipo, sendo uma passagem, supõe que a submissão a ele realizada tenha como fruto o deslizamento e a possibilidade de metaforização. As crianças gostariam muito de poder olhar um homem ou uma mulher, simplesmente como pai e mãe e ficarem liberados desse aprisionamento ao Outro. Sabemos que o adulto é responsável por essas situações. Também sabemos que muitas crianças dão nó em pingo d'água e conseguem uma autorização, ortopédica em algumas situações é verdade, mas ainda assim, se safam.
Eu sou uma delas.
Conceição
Depois que escrevi fiquei pensando:
Submeter-se ao Édipo? Não é bem disso que se trata. Ninguém se submete (submetendo-se) ao Édipo. Trata-se de algo, inexorável. Mas foi um interessante engano.
Conceição
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